Jejum intermitente, dieta cetogênica e compostos bioativos no cuidado ao paciente oncológico

POSICIONAMENTO OFICIAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO ONCOLÓGICA – SBNO

 

Jejum intermitente, dieta cetogênica e compostos bioativos no cuidado ao paciente oncológico

 

A Sociedade Brasileira de Nutrição Oncológica – SBNO, considerando o crescente interesse de pacientes, familiares, profissionais da saúde e da sociedade por estratégias alimentares relacionadas ao metabolismo tumoral, apresenta seu posicionamento sobre o uso do jejum intermitente, da dieta cetogênica e dos compostos bioativos durante a prevenção, o tratamento e o acompanhamento do câncer.

Este documento fundamenta-se na análise das evidências científicas disponíveis e nos princípios do cuidado nutricional seguro, individualizado, ético e integrado ao tratamento oncológico convencional.

  1. Considerações gerais

O jejum intermitente, a dieta cetogênica e determinados compostos bioativos apresentam plausibilidade biológica e resultados pré-clínicos promissores. Entretanto, a existência de mecanismos biologicamente plausíveis não significa, por si só, que essas estratégias produzam benefícios clínicos comprovados em pacientes com câncer (1,2).

Os estudos disponíveis ainda apresentam limitações relevantes, como pequeno número de participantes, heterogeneidade dos tipos de câncer e dos protocolos utilizados, curta duração das intervenções, dificuldades de adesão, ausência de padronização e escassez de ensaios clínicos randomizados com desfechos como sobrevida, progressão tumoral, resposta ao tratamento e qualidade de vida (1,2).

A SBNO destaca que a prioridade da assistência nutricional em oncologia deve ser (3):

  • prevenir e tratar a desnutrição;
  • preservar a massa e a força muscular;
  • manter a funcionalidade e a autonomia;
  • favorecer a tolerância aos tratamentos antineoplásicos;
  • controlar sintomas que interferem na alimentação;
  • promover qualidade de vida, conforto e segurança alimentar;
  • respeitar preferências, cultura, condições clínicas e objetivos terapêuticos do paciente. Setembro – 2026
  1. Posicionamento sobre o jejum intermitente

O jejum intermitente caracteriza-se pela alternância entre períodos de alimentação e períodos de restrição alimentar ou energética.

Estudos experimentais sugerem que essa estratégia pode reduzir os níveis de insulina e IGF-1, modular vias relacionadas à AMPK e à mTOR, estimular a autofagia e produzir alterações na resposta inflamatória e no estresse oxidativo. Também é investigada a hipótese de que células saudáveis apresentariam maior capacidade de adaptação ao jejum do que células tumorais, fenômeno denominado resistência diferencial ao estresse (4).

Alguns estudos clínicos iniciais indicam possível redução da fadiga, de sintomas gastrintestinais e de determinadas toxicidades relacionadas à quimioterapia. Esses resultados, contudo, são provenientes predominantemente de estudos pequenos, heterogêneos e com protocolos pouco padronizados (1).

Não existem evidências clínicas suficientes para afirmar que o jejum intermitente (5):

  • reduza de forma consistente o crescimento tumoral;
  • melhore a resposta ao tratamento;
  • aumente a sobrevida;
  • reduza a recorrência do câncer;
  • possa ser utilizado como tratamento antineoplásico isolado.

Além disso, o jejum pode reduzir o consumo energético e proteico e favorecer perda de peso e de massa muscular. Esses efeitos são especialmente preocupantes em pessoas com anorexia, baixa ingestão alimentar, sarcopenia, caquexia, perda ponderal involuntária, sintomas gastrintestinais, doença avançada ou baixa reserva funcional (6).

A SBNO posiciona-se da seguinte forma:

  1. O jejum intermitente não deve ser recomendado de forma rotineira, ampla ou indiscriminada a pacientes oncológicos.
  2. O jejum não constitui tratamento do câncer e não deve substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapia-alvo, hormonioterapia ou qualquer outra modalidade terapêutica indicada pela equipe assistencial.
  3. Pacientes com desnutrição, perda de peso involuntária, sarcopenia, caquexia, baixa ingestão alimentar ou elevado risco nutricional não devem ser submetidos a protocolos de jejum.
  4. A realização de jejum por iniciativa própria, especialmente nos períodos próximos à quimioterapia ou à radioterapia, deve ser desencorajada.
  5. Eventual utilização dessa estratégia deve ficar restrita, a protocolos de pesquisa.

Portanto, o jejum intermitente ainda não é considerado padrão de cuidado em nutrição oncológica (1,5).

 

  1. Posicionamento sobre a dieta cetogênica

A dieta cetogênica é caracterizada por restrição acentuada de carboidratos, maior participação de lipídios e indução de cetose nutricional.

Seu racional em oncologia está relacionado ao chamado efeito Warburg, pelo qual muitas células tumorais utilizam preferencialmente a glicólise, mesmo na presença de oxigênio. A redução da oferta de glicose e da sinalização de insulina e IGF-1 poderia, teoricamente, criar um ambiente metabólico menos favorável à proliferação de determinados tumores (2,7).

Os resultados mais promissores foram observados em estudos experimentais e em investigações iniciais envolvendo tumores do sistema nervoso central, especialmente gliomas e glioblastomas. Mesmo nesses casos, ainda não demonstraram de forma consistente aumento da sobrevida, controle da progressão tumoral ou melhora objetiva da resposta terapêutica (2).

A redução da glicemia, da insulina ou do peso corporal representa uma alteração metabólica, mas não comprova benefício oncológico direto.

A dieta cetogênica também pode estar associada a (2,6):

  • baixa adesão e dificuldade de manutenção;
  • monotonia e restrição alimentar;
  • náuseas, constipação, diarreia e outros sintomas gastrintestinais;
  • deficiência de fibras e micronutrientes;
  • perda de peso involuntária;
  • redução da massa muscular;
  • agravamento da sarcopenia, da desnutrição e da caquexia;
  • piora da relação do paciente com a alimentação;
  • impacto negativo sobre o prazer alimentar e a qualidade de vida.

 

A SBNO posiciona-se da seguinte forma:

  1. A dieta cetogênica não deve ser indicada de forma ampla ou indiscriminada para pacientes com câncer.
  2. A dieta cetogênica não cura o câncer, não substitui o tratamento oncológico convencional e não deve ser divulgada como estratégia capaz de “privar o tumor de glicose”.
  3. Não há evidência suficiente para recomendar sua utilização rotineira com o objetivo de aumentar a sobrevida, reduzir o tumor, prevenir metástases ou evitar recorrência da doença.
  4. A estratégia deve ser evitada em pacientes oncológicos, sobre tudo, com desnutrição, sarcopenia, caquexia, perda ponderal involuntária, baixa ingestão alimentar, doença metastática com elevado catabolismo ou baixa reserva funcional.
  5. Sua investigação pode ser considerada em estudos clínicos bem delineados, sem que isso represente recomendação para uso assistencial rotineiro. Assim, a dieta cetogênica, não constitui atualmente padrão de cuidado no tratamento nutricional do câncer (2).

 

    4,Posicionamento sobre compostos bioativos

Compostos bioativos são substâncias presentes principalmente em frutas, hortaliças, leguminosas, cereais integrais, sementes, especiarias, fungos e outros alimentos de origem vegetal.

Curcumina, resveratrol, sulforafano, antocianinas, polifenóis, carotenoides e diversos fitoquímicos vêm sendo estudados por seus possíveis efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, imunomoduladores e epigenéticos, além da capacidade de interferir em vias relacionadas à proliferação celular, apoptose, angiogênese e metabolismo tumoral (8,9).

Apesar do interesse científico, a maior parte dos resultados positivos deriva de estudos celulares, modelos animais ou investigações mecanísticas. A extrapolação direta desses achados para seres humanos é limitada por fatores como: (8,9).

  • doses utilizadas experimentalmente muito superiores às obtidas pela alimentação;
  • baixa absorção e baixa biodisponibilidade de alguns compostos; ● metabolismo e eliminação rápidos;
  • heterogeneidade entre produtos, extratos e formulações;
  • ausência de padronização das doses;
  • diferenças entre matriz alimentar e suplemento isolado;
  • risco de interações com medicamentos e terapias antineoplásicas;
  • escassez de ensaios clínicos robustos.

A curcumina, por exemplo, apresenta resultados experimentais relevantes, mas sua baixa biodisponibilidade oral dificulta que sejam atingidas, em seres humanos, as concentrações empregadas em estudos laboratoriais (9, 10).

A SBNO posiciona-se da seguinte forma:

  1. Os compostos bioativos não devem ser apresentados como tratamento ou cura do câncer.
  2. O consumo de alimentos naturalmente fontes de compostos bioativos pode integrar uma alimentação variada, equilibrada e adequada às necessidades do paciente, desde que respeitados o estado clínico, os sintomas e a tolerância alimentar.
  3. A SBNO prioriza a obtenção de compostos bioativos por meio da matriz alimentar, e não pelo uso indiscriminado de suplementos, extratos concentrados ou formulações isoladas.
  4. Suplementos e doses farmacológicas não devem ser utilizados sem indicação individualizada e avaliação de possíveis interações com quimioterápicos, anticoagulantes, imunoterápicos, terapias-alvo, radioterapia e outros medicamentos.
  5. A expressão “natural” não significa necessariamente seguro. Produtos naturais podem provocar toxicidade, alterar o metabolismo de medicamentos e interferir na eficácia ou nos efeitos adversos do tratamento (11).
  6. Pacientes devem comunicar à equipe assistencial todos os suplementos, chás, extratos, fitoterápicos e produtos naturais que utilizam.
  7. Não há evidência clínica suficiente para recomendar compostos bioativos isolados com a finalidade de reduzir tumores, impedir metástases, aumentar a sobrevida ou substituir terapias convencionais.

 

Logo,  compostos bioativos possuem potencial de investigação, mas a maioria das evidências ainda é pré-clínica. Sua aplicação deve priorizar a alimentação, a segurança e a individualização, evitando suplementação isolada ou indiscriminada (8, 9).

  1. Recomendações aos pacientes e familiares

A SBNO recomenda que pacientes e familiares:

  • não iniciem jejuns ou dietas restritivas por conta própria;
  • não suspendam alimentos ou grupos alimentares com base na ideia de “alimentar o tumor”;
  • não utilizem suplementos, extratos, chás ou fitoterápicos sem comunicar a equipe;
  • procurem nutricionista habilitado e com experiência no cuidado oncológico;
  • informem rapidamente a equipe diante de perda de peso, redução do apetite, fraqueza, dificuldade para se alimentar ou piora dos sintomas;
  • desconfiem de promessas de cura, desintoxicação, alcalinização do organismo ou eliminação do câncer por meio de dietas e suplementos;
  • mantenham o tratamento indicado pela equipe oncológica.

 

  1. Recomendações aos profissionais da saúde

Os profissionais devem realizar triagem e avaliação nutricional antes de considerar qualquer intervenção metabólica, incluindo avaliação de (6):

  • perda ponderal recente;
  • ingestão energética e proteica;
  • massa e força muscular;
  • presença de sarcopenia ou caquexia;
  • sintomas de impacto nutricional;
  • funcionalidade;
  • estágio da doença;
  • tratamento em curso;
  • prognóstico e objetivos do cuidado;
  • preferências, valores e condições socioeconômicas do paciente.

Qualquer decisão deve ser compartilhada com o paciente e a equipe multiprofissional, com registro dos riscos, benefícios esperados, incertezas científicas e plano de monitoramento.

Conclusão

A SBNO reconhece o jejum intermitente, a dieta cetogênica e os compostos bioativos como temas relevantes e promissores para a pesquisa em oncologia metabólica. Entretanto, plausibilidade biológica e resultados pré-clínicos não equivalem a eficácia clínica comprovada.

Com base nas evidências disponíveis, a SBNO:

  • não recomenda o uso do jejum intermitente em pacientes oncológicos;
  • não recomenda a dieta cetogênica como tratamento do câncer nem como conduta nutricional de aplicação geral;
  • não recomenda compostos bioativos isolados ou suplementos em altas doses como terapias antineoplásicas ou terapia nutricional.

 

Nesse sentido, a terapia nutricional oncológica deve manter como fundamentos a segurança, a preservação do estado nutricional e da massa muscular, a funcionalidade, o conforto, a autonomia e a qualidade de vida.

Referências

  1. Ferro Y, et al. Therapeutic fasting in reducing chemotherapy side effects in cancer patients: a systematic review and meta-analysis. Nutrients. 2023;15(12):2666. doi:10.3390/nu15122666.
  2. Römer M, et al. The use of ketogenic diets in cancer patients: a systematic review. J Cancer Res Clin Oncol. 2021;147(4):1139-1150. doi:10.1007/s00432-021-03570-5.
  3. Sociedade Brasileira de Nutrição Oncológica (SBNO); Pinho NB, organizador. I Consenso Brasileiro de Nutrição Oncológica da SBNO. Rio de Janeiro: Edite; 2021 [citado 2026 jun 19]. Disponível em: https://sbno.com.br/wpcontent/uploads/2021/07/consenso_2021.pdf
  4. Tiwari S, et al. Effect of fasting on cancer: a narrative review of scientific evidence. Cancer Sci. 2022;113(10):3291-3302. doi:10.1111/cas.15492.
  5. Drexler U, et al. Fasting during cancer treatment: a systematic review. Qual Life Res. 2023;32(5):1427-1446. doi:10.1007/s11136-022-03300-1.
  6. Muscaritoli M, et al. ESPEN practical guideline: clinical nutrition in cancer. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913. doi:10.1016/j.clnu.2021.02.005.
  7. Hanahan D. Hallmarks of cancer: new dimensions. Cancer Discov. 2022;12(1):31-46. doi:10.1158/2159-8290.CD-21-1059.
  8. Sharifi-Rad J, et al. Turmeric and its major compound curcumin on health: bioactive effects and safety profiles for food, pharmaceutical, biotechnological and medicinal applications. Front Pharmacol. 2020;11:1021. doi:10.3389/fphar.2020.01021.
  9. Zoi V, et al. The role of curcumin in cancer treatment. Biomedicines. 2021;9(9):1086. doi:10.3390/biomedicines9091086.
  10. Sohn SI, et al. Biomedical applications and bioavailability of curcumin-an updated overview. Pharmaceutics. 2021;13(12):2102. doi:10.3390/pharmaceutics13122102.
  11. National Cancer Institute. Cancer therapy interactions with foods and dietary supplements (PDQ®): health professional version. Bethesda (MD): National Cancer Institute; 2025 [citado 2026 ago 3]. Disponível em: https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/cam/hp/dietary-interactions-pdq.
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