A Jornada do Cuidado Nutricional no Câncer de Colo do Útero


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A Jornada do Cuidado Nutricional no Câncer de Colo do Útero

Crisnadaia Machado Pereira – CRN-10 12063 – Araranguá/SC
Especialista em Nutrição Oncológica pela Sociedade Brasileira de Nutrição Oncológica (SBNO)

O câncer de colo do útero representa um importante problema de saúde pública, especialmente em países em desenvolvimento, devido à sua elevada incidência, impacto socioeconômico e mortalidade ainda significativa. Apesar de frequentemente diagnosticado em estágios iniciais, quando o prognóstico é mais favorável, os tratamentos empregados — como cirurgia, quimioterapia e radioterapia — estão associados a efeitos adversos relevantes que comprometem o estado nutricional e a qualidade de vida das pacientes. Nesse cenário, o cuidado nutricional se configura como componente essencial ao longo de toda a jornada terapêutica, desde o diagnóstico até o seguimento ambulatorial.

No Brasil, o câncer de colo do útero permanece entre as neoplasias ginecológicas mais incidentes, com maior concentração de óbitos nas regiões Norte e Nordeste, refletindo desigualdades no acesso ao rastreamento, diagnóstico precoce e tratamento adequado¹. A infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), especialmente pelos subtipos 16 e 18, constitui o principal fator etiológico da doença, sendo potencializada por condições como tabagismo, sedentarismo, alimentação inadequada e imunossupressão².

Do ponto de vista nutricional, pacientes com câncer de colo do útero apresentam risco elevado de desnutrição energético-proteica, perda ponderal involuntária, sarcopenia e declínio funcional, especialmente durante a quimiorradioterapia³. Alterações metabólicas induzidas pelo tumor, associadas aos efeitos colaterais do tratamento, contribuem para redução da ingestão alimentar e piora do estado nutricional, impactando negativamente o prognóstico⁴.

A triagem e a avaliação nutricional precoce são fundamentais para a identificação do risco nutricional e o direcionamento das intervenções adequadas. A intervenção nutricional individualizada, com adequação do aporte calórico e proteico, fracionamento das refeições e manejo dietético dos sintomas gastrointestinais, constitui pilar central do cuidado oncológico nutricional⁵.

Estratégias como o uso de suplementos nutricionais orais, imunonutrientes no perioperatório, suplementação de ômega-3 e probióticos têm demonstrado benefícios na manutenção da massa muscular, redução da inflamação e melhora da tolerância ao tratamento⁶. Padrões alimentares com perfil anti-inflamatório, como a dieta mediterrânea, surgem como alternativas promissoras no cuidado continuado⁷.

Dessa forma, o cuidado nutricional deve ser compreendido como parte integrante e contínua do tratamento oncológico, contribuindo para a melhora da qualidade de vida, funcionalidade, adesão terapêutica e desfechos clínicos.

Referências Bibliográficas

  1. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2019.
  2. Nakagawa JTT, Schirmer J, Barbieri M. Vírus HPV e câncer de colo do útero. Rev Bras Enferm. 2010;63(2):307-11.
  3. Planas M, et al. Prevalence of hospital malnutrition in cancer patients. Support Care Cancer. 2016;24(4):429-35.
  4. Barreto AB, et al. Ingestão alimentar de mulheres com tumores ginecológicos. Rev Bras Cancerol. 2022;68(2):1-10.
  5. Cruz-Jentoft AJ, et al. Sarcopenia: revised European consensus. Age Ageing. 2019;48(1):16-31.
  6. Gholamalizadeh M, et al. Dietary supplements in cervical cancer. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol X. 2023;19:1-9.
  7. Schulpen M, van den Brandt PA. Adherence to the Mediterranean diet and cancer incidence. J Acad Nutr Diet. 2021;121(2):242-52.
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